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domingo, 8 de novembro de 2009

Divórcio Divino - Capítulo 3

Autor: Rafael Rodrigues
Gênero: Humor
Contato: eusouthot@gmail.com
Sinopse:
Madalena segue em frente com sua decisão, auxiliada por sua amiga, Maria, e pelas apóstolas, um grupo de apoio de mulheres em processo de divórcio. O grande problema é que, agora, não há como voltar atrás. E, acredite, logo voltar atrás será justamente o que Madalena mais vai querer...



Eu sou o advogado, a discórdia e a mídia.

O dia amanhece maravilhosamente aberto. Céu azul, temperatura agradável. Parece um daqueles dias em que se agradece por estar vivo. Mesmo com dúvidas sobre se está fazendo a coisa certa, Madalena está feliz, pois, pela primeira vez em muito tempo conhece o que é liberdade. Depois de conhecer as apóstolas e falar um pouco de si, Madalena se sentia melhor. Bem o suficiente para, ao levantar, ter vontade de dar uma volta pela cidade, como há muito não fazia. Súbito, ao abrir a porta, seus olhos são ofuscados por uma intensa luz, mais poderosa que o sol. Madalena pensou então que finalmente Deus havia vindo tirar satisfações. Ela estava pronta para lavar a roupa suja com seu marido, quando percebeu que a luz intensa piscava intermitente, como relâmpagos junto com uma porção de sons difíceis de distinguir. Deus devia estar muito irritado com ela, ela pensa. Quando seus olhos se adaptaram à luz, no entanto, ela percebeu que a luz não vinha do céu, e sim de câmeras fotográficas. À porta da casa, havia dezenas de repórteres, câmeras filmando e máquinas fotográficas tirando fotos de Madalena e fazendo perguntas, todos ao mesmo tempo. Ao ver toda a mídia ali querendo um pedaço dela foi que Madalena teve CERTEZA de que Deus estava muito irritado com ela.

- Eu... Eu não tenho nada a declarar. – pronunciou Madalena algumas vezes enquanto tentava driblar a massa de repórteres que a seguiam como se ela fosse a nova messias. A diferença é que eles não estavam atrás de histórias em parábolas, e sim de histórias para as primeiras páginas dos jornais.

Não foi uma tarefa fácil se livrar de todos aqueles jornalistas, mas Madalena teve ajuda de Maria, mais uma vez. Com um pensamento rápido, Maria manchou de manteiga uma forma do forma aleatória e conseguiu convencer os jornalistas de que o rosto de Cristo havia se manifestado na manteiga da forma. Todos acreditaram facilmente, o que é comum entre jornalistas. Até eles perceberem que aquilo era só um engodo, Madalena já estaria bem longe.

Madalena não fazia idéia de como a história tinha se espalhado, e estava preocupada que, como Judas havia dito, isso pudesse interferir no processo. Decidiu então ir atrás do seu advogado para ver se conseguia alguns conselhos de como proceder agora que todo mundo parecia saber da história. Ao chegar lá, descobre que a coisa está pior do que ela imaginava.

- É, eu já estou sabendo, Irmã. A imprensa ficou me enchendo o saco desde que eu cheguei aqui. Eles só foram embora quando souberam que Cristo havia aparecido numa forma com manteiga. – dizia Judas. – Mas isso não é o pior. Os jornais de todo o Brasil estão falando disso, e os sites também, então logo o mundo inteiro vai estar falando disso.
- E... O que vamos fazer?
- Infelizmente, não há o que fazer. Casos como esse, que envolvem celebridades, sempre vão ser um prato cheio para manchetes e sensacionalismo.
- Se pelo menos soubéssemos como a mídia ficou sabendo...
- Não ia fazer diferença sabermos disso. Agora o que nos resta é nos adaptarmos à essa nova situação. Não vamos nos desesperar, vai ficar tudo bem.
- É, Bom... Talvez os jornalistas sejam parciais e ajam de forma responsável. – comenta Madalena, esperançosa.

Judas fica em silêncio por um instante, antes de responder:

- AhUAhUAHuAHuHAuHAuHAuHAuhAuhAUhUAhUAHuHAuHAuHAUHAUHAuHA AhUAhUAHuAHuHAuHAuHAuHAuhAuhAUhUAhUAHuHAuHAuHAUHAUHAuHA AhUAhUAHuAHuHAuHAuHAuHAuhAuhAUhUAhUAHuHAuHAuHAUHAUHAuHA AhUAhUAHuAHuHAuHAuHAuHAuhAuhAUhUAhUAHuHAuHAuHAUHAUHAuHA AhUAhUAHuAHuHAuHAuHAuHAuhAuhAUhUAhUAHuHAuHAuHAUHAUHAuHA AhUAhUAHuAHuHAuHAuHAuHAuhAuhAUhUAhUAHuHAuHAuHAUHAUHAuHA AhUAhUAHuAHuHAuHAuHAuHAuhAuhAUhUAhUAHuHAuHAuHAUHAUHAuHA AhUAhUAHuAHuHAuHAuHAuHAuhAuhAUhUAhUAHuHAuHAuHAUHAUHAuH!
É bom saber que, diante da situação, você ainda consegue manter o bom humor, irmã...

Ao voltar para a casa de Maria, Madalena é facilmente reconhecida pelas pessoas. As pessoas olham para ela, em silêncio, enquanto ela imagina que não vai conseguir chegar em casa, não sem ser linchada antes. Mas, curiosamente, a grande maioria das pessoas que se aproxima dela e a reconhece quer, na verdade, parabenizá-la pela coragem e atitude. Ela se surpreende com a reação das pessoas, e apenas as agradece. Ao chegar em casa, encontra uma pilha de cartas enviadas à ela. Maria está ali, tentando ajeitá-las em algum ponto da casa.

- Viu que loucura? Todas essas cartas foram entregues pessoalmente pelas pessoas aqui, moradoras da cidade. – explica Maria. - Algumas trouxeram suas próprias cartas, outras trouxeram cartas à pedido de pessoas de diversas partes do país, e do mundo também. Na internet, há diversos sites criados para apoiá-la e as listas de discussão da internet só falam disso!
- Oh, meu Deus... Isso...Isso está indo longe demais, eu...eu não esperava que chegasse á isso...
- Mada, você tem que ser forte e seguir em frente. Você tomou essa decisão porque achava que era a coisa certa. Eu acredito em você, e não vou deixar você desistir agora.
- Eu... Eu não sei o que pensar...
- Então descanse um pouco. Eu me encarrego da imprensa.
- E-Está bem... Obrigado, Maria. Nâo sei como agradecer o que você está fazendo por mim.
- Não agradeça, amigas são pra essas coisas. Vai, esquece um pouco tudo isso, esvazia a cabeça, amanhã você vai estar bem melhor.
- É, espero que sim... Afinal, podia ser pior, né?

Em outra parte da cidade, um padre está muito preocupado. Ele soube do processo de divórcio e passou a manhã bastante inquieto. Demorou um tempo, mas ele finalmente decidiu falar com seu superior imediato.

- Senhor Papa, é um prazer estar falando com o senhor, o senhor é uma inspiração para todos nós, cristãos, e...
- Em nome de Deus, homem, chega de babação, sou um Papa ocupado, diga logo o que quer!
- OK, desculpe. É que... Bom, há uma freira, aqui no Brasil, que, bem, ela entrou com um processo de divórcio contra O Deus todo-poderoso.
- Isso é brincadeira, né?
- Não, senhor, eu nunca brincaria com uma coisa dessas. A notícia se espalhou e, agora com todos esses novos meios de comunicação, literalmente o mundo inteiro já deve estar sabendo.
- E porque toda essa preocupação? Ela está processando, com a lei dos homens, O Criador de todas as coisas. É o mesmo que uma pulga querer se vingar de um ser humano!
- Eu sei, senhor, e não questiono a grandiosidade do Deus Todo-Poderoso, mas fico preocupado com a Igreja.
- E o que tem a Igreja a ver com isso?
- Bom, se essa história abrir um precedente que leve outras pessoas a atitudes semelhantes, isso pode aumentar cada vês mais, e então nós teremos um grande problema. Pode ser o fim das religiões como as conhecemos, não só da Igreja Católica!
- Ora, você está exagerando. Como é que uma única freira conseguiria causar o colapso das religiões no mundo inteiro?

Em outra parte do mundo uma mulher, que se dedicou ao Judaísmo por toda a sua vida, se sente enganada. Ao ouvir sobre a história de Madalena, ela decide tomar uma atitude legal. Por ser de família abastada, teve a oportunidade de conversar pessoalmente com um dos melhores advogados do país.

- E então, qual é o problema?
- Bom, eu dediquei minha vida inteira à Deus, achando que ele era fiel. Agora descubro que ele possui outra esposa, provavelmente muitas outras. Isso me envergonha profundamente!
- Bem, hã... E o que pretende fazer?
- Ora, o que qualquer mulher no meu lugar faria: Processar Deus por POLIGAMIA.

Continua...

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Divórcio Divino - Capítulo 2

Autor: Rafael Rodrigues
Gênero: Humor
Contato: eusouthot@gmail.com
Sinopse: Um divórcio pode ser algo bastante complicado, principalmente com um marido como o de Madalena. E a coisa piora quando esse tipo de situação tende a facilmente fugir do controle...



Em verdade eu te digo que hoje estarás comigo no grupo de apoio

Agora que Irmã Madalena havia entrado com um pedido de divórcio contra Deus, não se sentia mais à vontade para ficar na casa do seu marido, por motivos óbvios. Por essa razão, precisou procurar outro lugar para ficar, e lembrou-se de sua melhor amiga, que não via há muitos anos, desde que devotou sua vida à Deus. E Maria, que nunca esquecera a grande amiga, depois de saber pelo que ela estava passando, ofereceu sua casa para que Madalena pudesse passar uns tempos até que o assunto se resolvesse.

- Sei que eu já disse isso, mas muito obrigado por me deixar ficar na sua casa, Maria. Agradece Madalena pela milésima vez.
- Já disse pra não se preocupar com isso, Mada. Amigas tem que apoiar umas às outras em momentos difíceis. Sei como uma separação pode ser difícil. – responde Maria.
- Acha que eu fiz a coisa certa? – pergunta a irmã.
- Claro que sim, Mada! Olha só quantos anos fazem que a gente não se via! Tudo isso porque, desde que você casou, você sequer saía de casa, e por quê?
- Hã... bem...
- Porque, Mada?
- Porque estava totalmente dedicada à Deus.
- Então! Que tipo de homem é tão megalomaníaco que precisa que sua esposa se devote à ele 24 horas por dia, sem que ele dê nada em troca? E seu espaço pessoal, sua individualidade? Você não só fez o certo como já estava na hora!

A conversa entre as duas amigas é interrompida pela campainha. Ao atender, Maria vê que é Judas, o advogado.

- Espero que não se importe, Maria, mas Judas queria falar comigo então pedi que ele viesse até aqui. – explica Madalena
- Não tem problema, Mada. Entre, Judas.
- Muito obrigado. – Judas mal entre e já começa a dar as novidades. – Bom, irmã Madalena, o processo contra seu marido já está acontecendo. Mas tem mais algumas coisas que preciso ver com você.
- Tudo bem, Judas.
- Bem, então... Você precisa de alguma testemunha para ajudar a validar seus argumentos. Você sabe, se não é só a sua palavra contra.
- Mas... Ninguém vai testemunhar contra ele.
- É, pelo que eu andei pesquisando ele é uma pessoa bem famosa, vai ser difícil que alguém se envolva nesse tipo de processo. Por isso precisamos manter isso no mais estrito sigilo, para que uma exposição à mídia não acabe destruindo nosso caso.
- Certo... Mas eu não tenho ninguém que possa testemunhar a meu favor...
- Claro que você tem – intromete-se Maria. Nós fomos melhores amigas por anos, e de uma hora para outra você se isolou no mundo por causa do seu marido e eu nunca mais te vi. Isso eu posso contar ao juiz.
- É, isso já ajudaria a mostrar como ele era um homem possessivo... – corrobora Judas. – Já é alguma coisa...
- Sério, Maria? Você testemunharia a meu favor?
- Mas... Que pergunta, Mada! Claro que sim, você é minha melhor amiga! Faria tudo pra te ajudar!
- Bom, eu preciso continuar trabalhando nos eu caso, Madalena. – diz Judas enquanto vai embora. – Com uma testemunha, nosso caso já ganha um pouco de força. Até logo.
- Eu nem acredito que ficamos tanto tempo sem nos falar. Sentia saudades de você, Maria.
- Eu também Mada. Mas agora vamos poder matar a saudade e colocar a conversa em dia.
- É...
- Mas antes, você precisa se animar um pouco. Vamos, vou te levar pra um lugar bem bacana!
- Ah, não , Maria, não quero sair para me divertir!
- Não se preocupa, não vou te levar para bares nem boates, muito pelo contrário. Vou te levar para um lugar onde você vai poder encontrar pessoas como você!
- Católicas?
- Divorciadas.

E de fato, era um lugar com pessoas divorciadas. Uma porção delas, para falar a verdade. Numa sala que era para ter sido uma sala comercial, mas que por algum motivo ninguém alugava era o refúgio de 12 mulheres autodemoninadas Apóstolas (nome criado por uma delas, que seria uma forma abreviada da sentença “após terem sido tolas de casarem, finalmente viram a cagada que fizeram e se divorciaram...”) e que se reuniam toda a semana para se ajudar com seus respectivos divórcios. Definitivamente, era o lugar certo para Madalena. Ou não.

- Ele só sabia de assistir futebol e não me dava bola – dizia uma delas.
- Ele nunca estava em casa, chegava tarde e sempre me vinha com desculpas esfarrapadas! – dizia outra.
- E você, o que tem pra reclamar de seu marido? – Pergunta uma delas, a mais bem vestida de todas, para a recém-chegada Madalena.
- Bom... Ele... Não fazia nada.
- Um vagabundo sustentado pela mulher, esses são os piores – responde uma delas, ao que todas as outras concordam.
- Bom, não é bem assim...
- Tudo bem, amiga – consola outra delas. – Você está entre pessoas que passam pelo mesmo que você. Pode se libertar, você não precisa mais se sentir obrigada a defender seu marido ou tentar fingir que era certo!
- Não, é que...
- É verdade – interrompe uma delas. – Pode ser sincera com a gente. Ele não fazia nada, e o que mais?
- Bom, eu não sei, pois ele nuca apareceu.
- Abandono de lar, isso é muito comum – responde a mais bem vestida de todas.
- E você – um delas se refere à mais bem vestida – o que tem a dizer sobre seu marido? Faz semana que está conosco e não disse nada até agora sobre seu divórcio.
- Bom, eu prefiro ao falar nada por enquanto.
- Ok, nós respeitamos sua opinião. – disse a mulher, ao que as outras concordaram com a cabeça, depois voltando-se novamente para Madalena – O que fazia seu marido, minha cara?
- Ele é... Bom, o Criador.
- Hm, ele é artista, então. Famoso?
- Acho que sim, todo mundo conhece Deus.

Todas ficam em silêncio por alguns instantes, admirada. A única que não parece admirada – na verdade, pareceu se interessar pela situação – foi a mais bem vestida dentre as mulheres presentes. Madalena não sabia o que fazer a seguir, pois pensou que fosse ser duramente criticada por sua decisão.

- Eu a acho uma mulher incrível. É preciso ter muita coragem para fazer isso. – apóia a bem vestida. As outras, seguindo o exemplo dela, também apoiaram Madalena. – Inclusive, eu gostaria de conversar mais com você a respeito disso para, você sabe, ajudá-la no que for preciso. Sei que é um pouco de pressão falar abertamente sobre isso com um bando de desconhecidas.
- Oh, isso seria bom, obrigada. Preciso mesmo desabafar.
- Quem sabe você me convida então para fazer uma visita à sua casa, onde podemos conversar com mais calma?
- Hã... Tudo bem.
- Ótimo, então.

Mais tarde, o editor do jornal mais famoso do país, “A esfera” recebe uma ligação. A ligação vem da mesma mulher bem vestida das Apóstolas.

- Alô? Algum progresso na matéria sobre divórcio? – pergunta o editor.
- Progresso? Esqueça a matéria sobre donas de casa patéticas e seus casamentos fadados ao fracasso! Vou te dar a maior matéria do século!
- Bárbara Barra Brás, o que você conseguiu dessa vez?
- Que tal ter na primeira página do Jornal: “Freira decide se divorciar legalmente de Deus?”

Continua...

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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Divórcio Divino - Capítulo 1

Autor: Rafael Rodrigues
Gênero: Humor
Contato: eusouthot@gmail.com
Sinopse:
Casamento sempre é algo complicado. Algumas vezes, por mais que se tente, realmente não dá certo. É triste, mas infelizmente isso é comum. No entanto, comum é algo que não pode ser dito do divórcio de Madalena, principalmente devido à natureza de seu marido...



Quem nunca se divorciou que atire a primeira pedra.

- Então, você quer se divorciar? – perguntava o advogado para Madalena, que ainda estava tímida e apreensiva. Afinal, nunca havia feito esse tipo de coisa na vida.
- Posso saber o motivo? – continuou a perguntar.
- Bom, é que... Bom, eu sou casada com ele há anos, sabe, e, bem...Ele nunca deu muita bola pra mim. Sequer aparece em casa para dar satisfações. Eu sei que ele é um homem muito ocupado, entendo isso, mas ele também deveria entender que tenho minhas necessidades, não deveria?
- Certamente, dona Madalena, certamente. Então, ele não é um bom marido.
- Bom, ele é perfeito, você sabe. Mas como marido... Acho que ele deixou muito a desejar.
- E a senhora então quer se divorciar dele alegando que ele não cumpre com as funções de marido?
- É, acho que sim.
- Entendo. Bom, dona Madalena, a senhora sabe que esses casos são complicados. Sempre há muito sentimento em jogo, e muita coisa pode mudar. Às vezes as pessoas fazem pedidos de divórcio de cabeça quente, sem pensar, e daí depois volta atrás e, além de todo o tempo gasto, fica meio feio, não é?
- Bem...
- Então minha pergunta é: a senhora tem certeza de que quer fazer isso?
- Sim, eu... Eu tenho sim. Quero fazer isso há muito tempo, mas só agora tive coragem.
- Está certo, então. Mas antes de aceitar ser seu advogado, dona Madalena, eu me reservo o direito de conhecer um pouco o outro lado, se a senhora não se importa.
- Oh, não, fique à vontade. Não tenho nada a esconder.
- Que bom. Vamos fazer assim, então: até amanhã, eu ligo para a senhora para conversarmos, está bem?
- E-está bem, senhor... – responde Madalena, já se preparando para deixar a sala. – Como é mesmo o seu nome?
- Pode me chamar de Judas, irmã.
- Ok, obrigado, senhor Judas.

E lá foi a irmã Madalena, com sua veste habitual que a faz parecer igual à qualquer outra freira. Com a diferença de que Madalena é a única insatisfeita por ter decidido casar-se com Deus. Para Judas, apesar de inusitado, não parecia ser nada que ele já não tivesse visto antes, então tratou de logo começar a trabalhar. Como forma de trabalho pessoal, Judas gosta de conhecer um pouco do “outro lado”, no caso o do marido, pois não raro esses casos acabam com o casal reatando e ele não vendo a cor do dinheiro. Então é sempre bom ter certeza de que isso não iria acontecer novamente.

Mas o marido de Madalena era alguém bastante peculiar. Um tal de Deus, que aparentemente todo mundo conhece. Provavelmente uma celebridade famosa. Tão famosa, mas não por isso mais fácil de encontrar. Seguindo uma série de indicações, encontrou diversas supostas “casas” de Deus, mas não conseguiu encontrar nada que pudesse dizer que ele sequer tenha estado em algum desses lugares alguma vez. Por fim, chegou até um lugar chamado “A verdadeira casa Divina”, e decidiu dar uma olhada. Ao entrar, nada muito diferente do que tinha visto nos outros lugares, diversas imagens do tal Deus, e até um altar para louvá-lo. Provavelmente um fã-clube. Judas odiava cultos à celebridades, mas tentou fingir que achava aquilo normal quando encontrou um homem de vestido preto. Estranhamente, a maioria dos membros do fã-clube de Deus usavam vestidos. Judas não sabia ao certo porque, mas também não fez muita questão de saber. Podia ser que Deus fosse algum astro do Rock. E todos sabem como astros do Rock são excêntricos, então o que dizer de seus fãs?

- Em que posso ajudá-lo, irmão? – perguntava o homem.
- Você é o dono do lugar?
- Oh, não, o verdadeiro dono desse lugar é Deus. – respondeu o homem, e Judas já viu que talvez pudesse estar no lugar certo.
- E Deus, onde está no momento?
- Ora, Ele está em todo o lugar.
- Hm, não tem residência fixa, então... – sussurrou Judas enquanto anotava tudo em um pequeno bloco de notas. – Como eu posso encontrá-lo?
- Muito simples, basta procurar no seu coração.

Judas ficou em silêncio por uns instantes.

- Celular, pelo jeito, nem pensar, né? Você o conhece bem?
- Eu o conheço o suficiente. Sei que ele me ama assim como eu amo a ele.
- Tendências homossexuais... – anotou Judas no seu bloco de notas – Hã... Então, acho que eu já tenho tudo o que eu precisava. Muito obrigado.
- Não há de que, venha sempre que puder.
- Certo... – “que não”, pensava Judas, enquanto ia embora daquele lugar estranho.

Judas agora estava convencido de que tinha um caso bom nas mãos. Um marido que nunca fica em casa, está sempre viajando, sem moradia fixa, aparentemente tem várias famílias... Não era à toa que Madalena queria se divorciar do sujeito, afinal, ele parece fazer de tudo, menos atuar como marido. Finalmente com um caso realmente sólido em mãos, Judas pegou o número de telefone que Madalena tinha deixado com ele – na verdade, de uma amiga onde ela iria passar uns tempos até que isso fosse resolvido – e ligou para a irmã.

- Alô? Posso falar com Madalena? É Judas, o advogado. Alô, dona Madalena? Boas notícias! Você acaba de oficialmente entrar com um processo de divórcio contra Deus!.

Continua...

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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Quid Pro Quo - Final

Autor: Rafael Rodrigues
Contato: eusouthot@gmail.com
Sinopse: Poderiam as aranhas terem planejado uma vingança contra André? Seja como for, ele e sua esposa estão prestes a descobrir que a realidade é mais estranha do que parece...



Execução

Definitivamente, não era o tipo de história que se ouvia todo o dia. Imagina então colocar isso num relatório policial. Mas, dado o estado do casal quando fora me procurar, eu decidi dar uma chance àquela história absurda, pelo menos para ouvi-la até o final.

E eis que então André acorda no sofá depois de finalmente ter conseguido dormir novamente, e se vê coberto por espessas camadas de teia de aranha. Teias de aranha são extremamente resistentes, dizem até que é tão resistente quanto o aço na mesma espessura, mas não sei, não entendo muito de aranhas. Enfim, estava lá André, preso pelas teias e agora se borrando todo de medo. Obviamente, ele gritou desesperado, o que acordou sua esposa que correu para ajudá-lo. Ela também se assustou ao vê-lo daquele jeito, mas fez de tudo para livrá-lo das teias. Com a ajuda de uma faca bastante afiada, e um bom tempo depois – não me disseram exatamente quanto – finalmente André estava livre. Rapidamente o bancário levantou-se, olhando para todos os lados para encontrar as aranhas, mas nem sinal delas. Onde quer que estivessem naquele momento, André pensava que estavam rindo da cara dele. O casal, sem entender o que se passava, conversou sobre a situação e sobre o que poderia estar acontecendo. André explicou que como torturou uma pequena aranha que encontrou quando estavam arrumando as coisas, acha que agora elas estão querendo se vingar. Marisa achava a idéia ridícula, afinal de contas, aranhas não possuem inteligência para tal ato, mas também não soube explicar como André aparecera coberto por teias. André, embora achasse que estava ficando louco, estava quase convencido de que aranhas estavam planejando vingança contra o que ele fez. Marisa questiona o fato, dizendo que, se elas quisessem ter se vingado, teriam feito isso quando ele estivesse dormindo. André acha que talvez elas estejam querendo “torturá-lo” antes de matá-lo, assim como ele fez com a aranha. Marisa sugere então, que, já que provavelmente eles não irão dormir enquanto não resolverem essa questão, que comecem a procurar o “ninho” das aranhas para exterminá-las. Afinal, eram apenas aranhas.

Decidiram então por uma caça aos aracnídeos. Mas antes, como de costume, André passa rapidamente pela porta do quarto de Letícia para se certificar de que ela estava bem. Ao contrário dos dois, a criança dormia como um anjo. Iniciaram então a busca. O primeiro lugar que procuraram foi a parte abaixo da casa. Apesar de não possuir um porão, a casa havia sido construída elevada devido às cheias que aconteciam em épocas de chuva décadas atrás, antes de uma barragem ter sido construída. A elevação não era alta o bastante para fazer um porão, mas era mais do que suficiente para que as aranhas pudessem ali construir seus domínios. Com a ajuda de uma lanterna, André procurou pelo que poderia ser o “ninho” das aranhas, mas não encontrou nada. Marisa chegou a sugerir que ele se esgueirasse por baixo para se certificar, mas André disse que não era necessário. Provavelmente estava morrendo de medo de se ver cercado por aranhas assassinas. Sim, eu não estou levando essa história muito à sério, mas imagino que, se tivesse acontecido comigo, também estaria receoso. De qualquer maneira, ali não havia aranhas. O único outro lugar onde poderiam se acumular era no sótão, que nem sequer havia sido visitado pelo casal nem quando eles conheceram a casa pela primeira vez.

André pega então a escada que havia na dispensa da casa, e coloca próximo à abertura no forro que dá para o sótão. Segundo o casal, Marisa decidiu subir junto com André para, sei lá, qualquer eventualidade. Estando lá, o que descreveram era bastante perturbador. É bem provável que o sótão não era utilizado havia muitas décadas, pois, segundo o casal, o lugar estava completamente tomado. Todo o sótão parecia um ninho de aranhas gigantesco, com camadas e mais camadas de teias cobrindo tudo ao redor, as paredes, o teto, o chão... Mas o mais assustador de tudo era que, segundo os dois, foi possível ter um vislumbre da “dieta” dos aracnídeos. Tinha todo o tipo de bicho, moscas, grilos, abelhas, besouro... E também animais de pequeno porte. Cachorros, galinhas, ratos... A maioria deles apenas partes. Era possível ver esqueletos de ratos praticamente limpos, sem nenhuma pele ou carne, cachorros mortos e com boa parte do corpo deteriorada e comida por mandíbulas pequeníssimas, provavelmente das aranhas. Sim, parece impossível, era exatamente o que eu pensava cada minuto que ouvia um novo relato dos dois. Mas decidi continuar ouvindo a história, afinal, mesmo que aquilo não fosse verdade, eles pareciam realmente acreditar no que estavam falando, então decidi não contrariá-los.

Então no sótão eles finalmente encontraram o ninho das aranhas. E que ninho. Mas não havia nenhuma aranha ali. Considerando como o sótão estava completamente tomado e havia sido transformado, literalmente num ninho gigante para os aracnídeos, dificilmente morariam ali apenas algumas dezenas de aranhas. Devia haver centenas. Mas onde elas estavam? Enquanto a dúvida pairava sobre a mente de André, Marisa divagava em voz alta sobre como aquilo não fazia nenhum sentido, principalmente no que se referia à aranhas, pois elas não são exatamente o tipo que vive em comunidade. O mais próximo de comunidade que eles têm é em relação à família, e isso logo no início do nascimento dos filhotes – isso segundo a própria Marisa, eu mesmo não entendo nada de aranhas. Ela divaga sobre uma possibilidade remota, mas considerando tudo o que já haviam visto até ali, estava valendo. Que, se há centenas de aranhas ali, elas só podem fazer parte da mesma família. E, se elas estavam mesmo querendo se vingar pelo que André fez, então provavelmente a aranha era um filhote, provavelmente o “mais novo”, só isso para explicar a agressividade delas.

Ao pronunciar a palavra “filhote”, não muito depois de “vingança”, André ligou os pontos do jeito que só alguém em situação de tensão e de completa confusão faria. Então ele falou o nome de sua filha em voz alta e desceu do sótão na maior velocidade que seu corpo não muito atlético e a escada permitiam, quase se jogando na volta ao chão. Marisa ainda não havia entendido o que ele tinha pensado naquela hora e apenas o seguiu. Os dois foram até o quarto de Letícia, e descobriram onde estavam as aranhas. Eu imagino que teria sido uma visão espetacular, se não fosse tão assustadora. Centenas de aranhas cobriam o quarto todo, do forro às paredes, passando pelo chão. E cobrindo o berço onde estava Letícia, que ainda dormia como se nada estivesse acontecendo. Marisa, observando aquela cena aterradora, tenta jogar-se para dentro do quarto para buscar sua filha, ao que é impedida por André. Os dois se desesperam, cada um da sua maneira. Marisa grita desesperada, sem pensar se adiantará alguma coisa, enquanto André apenas chora nervosamente.

Ao finalmente perceber que era o culpado por tudo aquilo, André fez de tudo: chorou, gritou, pediu desculpas, implorou, tentou barganhar... Sim, tentou barganhar com aranhas. Vai saber o que eu faria se estivesse na mesma situação. Mas nada aparentemente adiantou. As aranhas sequer se moveram. Marisa, à essa altura, já havia entrado em colapso, e logo desmaiaria. André, que já havia esgotado todas as alternativas possíveis, apenas foi ao chão, soluçando de tanto lamentar. Súbito, os aracnídeos – talvez por pensarem que ele já havia sofrido demais, quem sabe? – finalmente se moveram. E se moveram na direção de Letícia. André apenas observou, indefeso, as aranhas se moverem para dentro do berço de sua filha. Enquanto a maioria delas envolvia as paredes do berço, que desapareceram abaixo dos aracnídeos, outras se posicionavam sob a criança, levantando-a sem movimentos bruscos, como se soubessem exatamente o que estavam fazendo. Não demorou para as paredes do berço finalmente se renderem á força das criaturas e quebrarem, enquanto que as que haviam levantado levemente Letícia a moviam para fora do berço, com uma suavidade que, imagino, deva ter sido surreal. Então as aranhas levaram a criança para fora do quarto, enquanto as outras apenas a seguiam. Elas passaram por André e Letícia, como se o casal fosse apenas parte da decoração da casa. André estava consciente, mas em choque e não se mexia. E então as aranhas saíram dali, levando Letícia com elas. E a partir daquele momento, eles nunca mais viram sua filha.

Foi antes mesmo de amanhecer que eles apareceram na delegacia. Já estavam com algumas das suas coisas no carro para irem embora, e não pretendiam voltar para buscar o que havia ficado para trás. E então me contaram essa história difícil de acreditar. Aliás, impossível de acreditar, eu diria. Mas eles definitivamente não pareciam estar mentindo. Eles podiam ter problemas mentais, serem loucos, não sei, mas o que quer que fossem, realmente acreditavam que tinham passado por aquilo. Eu deveria tê-los detido até que as investigações chegassem à uma solução, mas considerando que essa casa já havia dado seus problemas antes,sabia que não ia adiantar muito. Então eu apenas os liberei. Fizeram questão de ir embora o mais rápido possível. Eu até pensei em organizar uma inspeção para tentar encontrar a criança, mas o pessoal da cidade é muito supersticioso, inclusive a maioria dos policiais, então foi difícil. Eu finalmente dei de ombros e percebi que aquela cidade não era pra mim, então fui embora. Nunca mais voltei, mas ainda me relaciono com pessoas de lá e de vez em quanto eu ainda ouço histórias sobre aquela casa. E não eram mais só as aranhas que davam problema. Nos meses subseqüentes à esse incidente, diversas pessoas tiveram breves passagens pela casa, e relataram diversos acontecimentos estranhos, como comidas, frutas, verduras e também bebidas que desapareciam misteriosamente...

E muitos deles relataram ter ouvido algumas vezes, vindo do sótão, o que pareciam ser risos de criança.

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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Contrapartes

Autor: Rafael Rodrigues
Contato: eusouthot@gmail.com
Sinopse:
Shine, o maior herói da cidade, comemora seus dez anos protegendo o mundo da maneira típica dos super-heróis: enfrentando seu maior inimigo.




Esta é uma hq curta de 5 páginas que produzi uns dois meses atrás meio que a toque de caixa para uma antologia de quadrinhos e acabou não sendo aprovada. Como a história era para ser publicada aqui e nos EUA, ela foi feita para ser a mais "universal" possível. Os desenhos são do um dos meus grandes parceiros de quadrinhos e excelente artista Thiago Danieli.




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